terça-feira, 21 de outubro de 2008

De quem é a culpa?

Relutei por dias falar sobre o caso do sequestro em Santo André, que de um surto de ciúme de um jovem transtornado, passou a trajédia.

Uns discutem a ação da polícia daqui, outros discutem a política dali. Vamos ao que eu penso, já que tanta gente tem puxado assunto. Falo agora e não falo mais, combinado?


É impossível pedir para polícia brasileira fazer mais do que ela está preparada. Se você é preparado para solucionar sequestros com pedido de resgate, não devo esperar de você uma solução imediata e competente em casos de sequestro passional. Portanto, a PM fez o que podia e sabia fazer. E não venha citar o fulano que treina a Swat e falou não-sei-o-quê no Fantástico. Patrícia Poeta e Zeca Camargo deveriam fazer uma análise crítica da situação ao invéz de levantar situações hipotéticas que não fazem parte da realidade brasileira.

Se a política brasileira não é voltada para o preparo dos profissionais antes que o problema ocorra, não adianta falar em preparo depois que a tragédia já está acontecendo... vide Ônibus 174. O mesmo caso, agora em São Paulo. E em nenhum dos dois acho que algum atirador de elite (sim, estes são treinados!) deveria ter atirado na cabeça de Lindemberg ou Sandro, como se a cabeça de um ser humano fosse um alvo. Sim, um ser humano, assim como eu e você. Não estou defendendo bandido, mas defendendo o direito a vida que foi dado a todos, em igualdade, a sequestrador e sequestrado. TODOS devem sair com vida. Se a polícia tivesse matado o ex-namorado, hoje, estariamos condenando a PM por não ter dado mais tempo para o rapaz. Estamos sempre prontos a atacar, tentando encontrar culpados.

Sandro (ônibus 174) era apenas mais uma vítima de nossa sociedade. Sem espaço, sem perspectivas, sem sonhos. Em um dia cinzento pra ele, resolveu se drogar e fazer o que nunca tinha feito, assaltar um ônibus, o que acabou virando um sequestro. O que manteve Sandro tantas horas naquele ônibus foi a mesma coisa que manteve Lindemberg dentro daquele apartamento: a mídia. Ambos olhavam pela janela e viam câmeras, jornalistas, imprensa...

A sociedade aqui fora, afoita por notícias da vida alheia, dá ibope pra quem não merece. Sônia Abrão liga para o sequestrador, interfere na negociação da polícia, um repórter de seu programa finge ser amigo da família. Tudo vai pro ar. Imaginem o rapaz ouvindo sua voz ao vivo na tv? Em rede nacional. Todo trabalho da polícia para tranquiliza-lo e fazer com que ele libertasse suas reféns vai por água abaixo. O PM fala que está tudo bem, que a pena é curta, que ele pode sair. A Record, Rede Tv e Bandeirantes falam quantos anos ele ficará preso só por ter iniciado o sequestro, mostram uma sociedade revoltada. Um bando de curiosos e jornalistas no térreo do prédio. Você se entregaria? Se o envolvimento da polícia já o deixava nervoso, imagina o envolvimento de um país inteiro. País que nada tem haver com a vida deles, daquelas famílias. Imagina tudo isso na mente de um jovem depressivo, transtornado, com sérios problemas psicológicos.

Um exemplo prático: Quando você não é bem atendido em uma loja, quem está errado é o funcionário que te atendeu mal, ou o gerente da loja? O gerente! Ele que deve treinar o funcionário, e caso este não corresponda, deve demiti-lo. O gerente é pago pra fazer isso. No caso do poder público, a polícia corresponde ao atendente e os governantes ao gerente.

E de quem é a culpa? Do governo? Da polícia? Vamos lá: quem deveria treinar a polícia, e não treinou? O governo. Quem elegeu e deveria cobrar ações do governo? Você.

Não que você seja o culpado, mas antes de atacar não deveríamos analisar a situação como um todo?

O Quarto Poder. Assistam esse filme. Assistam também Ônibus 174, tanto o documentário maravilhoso de Padilha, quanto o filme que irá estreiar dia 24.

Ponto final.

3 comentários:

Humberto disse...

Muito bem embasada sua análise, Lorena, como sempre.

Eu mesmo não tive estômago (nem tempo) para falar desse caso e da nojenta cobertura da mídia, sobretudo a Globo.

Concordo com suas observações.Mas, sinceramente, sem querer ser leviano e sem desconsiderar a história dos "vilões", eu sempre lamento muito mesmo pela vítima. No próprio caso dos filmes sobre o ônibus 174, ninguém nunca foca na vítima. Eu nem sei o nome da vítima.

Enfim, é tudo muito lamentável. E é um tanto surreal pensar que a gente vive em regime de selvageria mesmo. E está aí a caríssima Globo pra simbolizar tudo isso.

Abração, parabéns pelo blog cada dia melhor!

Elisa disse...

Oi, Lorena.

Vi seu comentário do blog da Cris sobre as fotos que eu faço dela. Fico feliz que goste e que veja um estilo nelas. Obrigada. Volto aqui mais vezes pra ver o que tem pensado. Sobre esse caso aí, fico só no socorro. Beijos.

Rute Faria disse...

Concordo plenamente com o Humberto.
Análise muito bem embasada.
Como sempre, as pessoas sempre acreditam na "verdade absoluta da mídia" e esquecem de olhar para o próprio umbigo...
parabéns!